quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A menina avoada


Foi na fazenda de meu pai antigamente
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.

Meu irmão pregava no caixote
duas rodas de lata de goiabada.
A gente ia viajar.

As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar
as rodas se abriam para o lado de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote
com as perninhas encolhidas.
Imitava estar viajando.

Meu irmão puxava o caixote
por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.

Eu comandava os bois:
- Puxa, Maravilha!
- Avança, Redomão!

Meu irmão falava
que eu tomasse cuidado
porque Redomão era coiceiro.

As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade -
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.

No caminho, antes, a gente precisava
de atravessar um rio inventado.
Na travessia o carro afundou
e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.

Sempre a gente só chegava no fim do quintal
E meu irmão nunca via a namorada dele -
Que diz-que dava febre em seu corpo.

(Manoel de Barros, Exercícios de ser criança. Salamandra, 1999)

2 comentários:

  1. nosaa eu te adimiro muito voce é um dos homens portas que eu adimiro muito eu vejo um esentivo que vc me dá naquele poema do senho
    "a menina avoada"
    eu gosto tanto que eu leio todo dia por que me da uma certa sorte em ler tabem eu gosto continue assim e que deus te abençoe
    ;)

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  2. Nossa, que liindo.
    Sonhos, pureza, so as crianças tem..
    Beijoos, parabéns!

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